• Fabiana de Luna

Ter diabetes e morar no Canadá: o país do futuro!


DIABETES E VIAGENS - NÃO TENHA MEDO DE MUDANÇAS!

Chegou a vez de conhecer mais um pouquinho sobre como é viver em um país diferente, tendo diabetes!

Vamos saber tudinho sobre o Canadá, através do meu amigo Matheus Veloso.

Mais uma vez a grande coincidência... o Matheus também foi meu colega na faculdade de engenharia, e descobriu o diabetes no início do curso.

Antes de se mudar para o Canadá, me lembro que o Matheus sempre viajou muito a trabalho, e certamente isso o ajudou a desenvolver uma logística para cuidar do diabetes em viagens...

Agora ele mora definitivamente no Canadá, com a esposa.

Vamos saber mais?

Dia(enoite)bética: Fale um pouco sobre você, de onde é, o que faz, enfim, conte-nos sobre o Matheus!

Meu nome é Matheus Veloso, tenho 35 anos e sou mineiro de Formiga. Isso mesmo, você não leu errado, uma “Formiga Diabética”. Pode isso? :-D

Também sou engenheiro de telecomunicações de formação mas atuando já há vários anos com Gerenciamento de Projetos nas áreas de TI e Telecomunicações. Engraçado, acho que li em algum blog sobre outros 2 engenheiros de telecomunicações Diabéticos! Quanta coincidência!

:-D

Dia(enoite)bética: Como foi o seu diagnóstico, que tipo de tratamento faz hoje em dia?

Descobri meu diabetes tipo 1 em 2001 já com 19 anos de idade (puxa vida, só agora me dou conta que convivo quase metade da minha vida na companhia da Tia Bete!).

Eu havia me mudado há pouco tempo para o sul de MG, para cursar a faculdade e já reclamava com meus pais do cansaço insistente que sentia, da quantidade absurda de água que andava bebendo (entre 4 a 5 litros/dia) e consequentemente das tantas idas e vindas ao banheiro, e também da perda de peso. Até que um dia na casa de meus pais, minha mãe me chama assustada após ver “formiguinhas” no vaso sanitário!

Após o susto, fui ao laboratório no dia seguinte e fiz meu primeiro exame de Glicose em Jejum, no qual resultado foi de 480mg/dl.

Até então nunca tive nenhum problema de saúde ou doença grave (nem osso quebrei quando moleque), e meus pais nem sabiam a quem recorrer naquele momento. Acabaram então me levando a um amigo da família: meu antigo pediatra, que acabou me internando por 3 dias para controlar minha glicose!

Depois dos esclarecimentos iniciais e passar pelo Endocrinologista, inciei meu tratamento com a famosa insulina NPH.

Já passei por vários tipos de tratamentos e insulinas diferentes como NPH, Regular, Mista, até que em 2009 comecei a fazer a Contagem de Carboidratos e usar o famoso combo Basal + Ultra-rápida.

Atualmente tenho usado a Toujeo (usando há 1 mês apenas, e gostando muito dos resultados) como basal e a Apydra ou Humalog como ultra-rápida.

Dia(enoite)bética: Quando decidiu mudar de país, já era diabético O diabetes te influenciou na decisão de alguma forma? Teve algum receio de viver em um outro país tendo DM1?

Na verdade minha condição não influenciou em nada minha decisão de mudança de país. Apenas me deixou preocupado e apreensivo (e meus pais ainda mais), pois não conseguia encontrar informações detalhadas na internet sobre o tratamento e acesso aos medicamentos/acompanhamento médico aqui no Canadá. No entanto, planejei bem minha chegada aqui trazendo quantidade de insumos suficiente para me manter pelos primeiros 6 meses. Assim, mitiguei o risco de não ter insumos enquanto resolvia as pendencias burocráticas para ter meu acesso ao sistema de saúde canadense regularizado. Sem nenhum problema! Vida que segue.

Dia(enoite)bética: Você precisa comprar insulinas no Canada? Ou recebe os insumos do governo?

Sim tenho de comprar os insumos, mas há um subsidio do sistema de saúde do provincial que é variável dependendo da condição de cada paciente.

Falando especificamente da província do Québec, onde resido, os cidadãos que são cobertos pelo Plano Público de Medicamentos com Receita da província (Public Prescription Drug Plan) pagam um valor anual entre $0 a $660 dólares canadenses ao apresentar sua declaração de imposto de renda anual. Outras pessoas que possuem algum plano de medicamentos privado (normalmente oferecidos pelas empresas nas quais trabalham), cobrem até 90% do valor dos medicamentos prescritos.

Importante frisar que qualquer medicamento, seja ele qual for, só é vendido com receita médica! Caso contrário, você terá de pagar o valor cheio do medicamento!

Portanto, acho que vale muito a pena o plano de medicamento público oferecido, pois se você considerar o teto máximo cobrado anualmente seriam aproximados $55 dólares canadenses por mês para ter acesso à todos os seus insumos mensais prescritos pelo seu médico: insulinas, lancetas, seringas/agulhas, fitas para medição, etc.

Muito melhor do que pagar $71.49 por uma única caixinha de 50 fitas de medição de glicose Accu Chek Aviva. 😊

Preço médio de 1 tudo de fitas

Referência: https://well.ca/products/accu-chek-aviva-test-strips_1747.html

Dia(enoite)bética: Como faz o acompanhamento da sua DM1 no canada. Como é encontrar o medico, existe equipe multiprofissional, é publico ou particular, quanto custa uma consulta...

As pessoas freqüentemente se referem ao "sistema de saúde canadense", quando, na realidade o país possui sistemas de saúde distintos para cada uma das províncias e territórios. A Lei de Saúde do Canadá descreve os princípios básicos para os cuidados de saúde serem universais e acessíveis para serviços essenciais de saúde médica e hospitalar em todo o país. No entanto, os detalhes de como cada sistema opera, incluindo o que está coberto e como, é determinado a nível provincial.

Falando do Québec, após seu registro e carteirinha do famoso RAMQ (Régie de l’assurance maladie du Québec) na mão, sua porta de entrada no sistema de saúde será através do programa de Medicina Familiar, parecido com o existente no Brasil. Inicialmente você terá de conseguir um MdF (Médico da Familia) pra você e será ele quem acompanhará seu histórico médico e todo seu tratamento. E somente se necessário ele te encaminhará para alguma especialidade, por exemplo solicitar um(a) Endocrinologista para acompanhar seu tratamento. É aí que está o problema, pois os prazos de espera são bem demorados. Há pouco tempo, li uma matéria de 2015 que informava que o tempo médio de espera no Québec entre o encaminhamento do MdF e o Especialista era de 9,9 semanas, e do Especialista para o tratamento final eram de mais de 8,9 semanas. Portanto uma espera total até o tratamento de 18,7 semanas (mais de 4 meses).

Referência: http://globalnews.ca/news/3084366/q-a-how-long-are-medical-wait-times-in-canada-by-province-and-procedure/

Apesar de toda esse "lenga lenga", um detalhe super legal aqui é que existe uma equipe multidisciplinar especializada em Diabetes que atua em conjunto ao programa de Medicina Familiar. São profissionais de enfermagem e nutrição altamente capacitados para orientar os pacientes diabéticos em seus tratamentos. Pra vocês terem uma ideia, eu só vejo meu MdF a cada 3 meses que é quando ele pede meus exames para o controle periódico, e mensalmente vejo o grupo de Enfermagem e Nutrição responsável por meu acompanhamento. São eles quem avaliam meus gráficos de medição de glicose e quem me ajudam no cálculo do bolus a ser utilizado, com referência na dieta prescrita pela Nutricionista.

Até agora tenho gostado muito do acompanhamento e atendimento realizado pelo sistema de saúde pública.

Dia(enoite)bética: E você achou fácil obter ajuda, orientação e etc.?

Antes de conseguir meu MdF e ser designado a esta equipe multidisciplinar para acompanhamento do meu tratamento, fiquei apreensivo e preocupado por não encontrar detalhes suficientes na internet. Também pela complexidade de se conseguir o MdF, pois estes são escassos. Como mencionei anteriormente, há longas filas de espera para que um MdF te aceite em sua lista de pacientes. Minha sorte foi usar o jeitinho brasileiro, para que um conhecido indicasse outro, que me indicasse para o médico! 😊

Depois disso, está sendo sensacional. Como disse, esta equipe multidisciplinar a qual fui designado me orienta em tudo quanto ao meu tratamento (dieta e bolus), além de me esclarecer várias dúvidas quanto ao sistema de saúde provincial.

Dia(enoite)bética: Como é controlar o diabetes num país que cuja culinária é tão diferente da nossa... Como é viver sozinho em outro país tendo diabetes. Algum medo? Você avisa seus amigos, vizinhos sobre o diabetes e como socorrer em uma situação adversa?

Uai, a gente dá os pulos né! Rs...

Todo dia é um aprendizado novo. O que não pode é ter preconceito de provar as coisas. Se não provar, não saberá se é bom ou ruim, e principalmente não terá como monitorar a glicose com “a novidade”. Como faço a contagem de carboidratos, minha primeira referência é a tabela nutricional do que vou comer. Sempre avalio a quantidade de CHO por porção e começo a fazer as “regrinhas de 3” na cabeça (sabem como é cabeça de engenheiro né!). Para comidas novas, que não estou acostumado como irão reagir no meu organismo, sempre faço um bolus menor pra não ter surpresas depois. E ainda meço a glicose novamente 1 ou 2h depois de ingerir, para corrigir se necessário.

Mas confesso, foi difícil no começo aqui, pela mudança na rotina e forma de alimentação. A Lantus fazendo muito efeito durante a noite e gerando hipoglicemias perigosas, que foram corrigidas com alteração no horário de aplicação e na quantidade. Hoje tá bão demais da conta!

Quanto ao medo por aqui, diria que minha maior preocupação (não medo, porque o medo sempre irá te inibir de realizar algo grandioso) é referente a hipoglicemias durante minhas pedaladas, principalmente aos fins de semana quando sei que ficarei algumas horas girando. Para tal, tenho meu check list de procedimentos básicos, aprimorados ao longo dos anos, para poder desfrutar ao máximo sem deixar a preocupação tomar conta:

  • Somente inicializo meus giros após uma alimentação pré-treino reforçada;

  • Consumo alguma fonte de CHO a cada 90min de exercício;

  • Hidrataçao contínua. Muita muita água durante meu exercício;

  • Sempre saio com meu bracelete médico, que possui meus dados, minha condição médica e contatos de emergência;

  • E claro, meu glicosímetro me acompanha sempre para qualquer emergência!

*Consulte seu médico, e trace uma estratégia adequada para seus exercícios e controle de sua glicemia!

Uma recomendação que sempre compartilho é: informe as pessoas próximas de você sobre sua condição! Não importa aonde estiver, avise seu(s) companheiro(s) de classe, do trabalho, ou ainda quando realiza atividades físicas em grupo sobre como eles podem te ajudar em caso de situações adversas.

Dia(enoite)bética: Uma mensagem pra quem deseja fazer intercâmbio ou mudar de país tendo diabetes?!

Se planeje com antecedência como fará seu controle e a quantidade de insumos que terá de levar para o “mundo novo”. Não conte com a sorte, e sempre leve margem de segurança suficiente para qualquer imprevisto. Planejamento assertivo = sucesso garantido!

Ainda, ao chegar no seu destino, ajuste um pouco seu controle para entender como seu corpo irá reagir ao novo ambiente e poder disfrutá-lo sem riscos. E aproveite muito cada nova experiencia!

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