• Fabiana de Luna e Ariana Andrade

DIABETES E TRABALHO - PRECISAMOS FALAR


VOCÊ JÁ SOFREU PRECONCEITO EM SEU TRABALHO?

ACHA QUE, EM ALGUM MOMENTO, O DIABETES INFLUENCIOU A DECISÃO DO EMPREGADOR EM UMA ENTREVISTA?

JÁ FOI IMPEDIDO DE FAZER PAUSAS, DE IR AO MÉDICO OU QUALQUER OUTRA ATIVIDADE RELATIVA AO TRATAMENTO DO DIABETES?

PRECISAMOS FALAR SOBRE DIABETES X TRABALHO

Provavelmente todos nós, em algum momento da vida, passamos ou passaremos por situações inusitadas, ou mesmo constrangedora, envolvendo nossa condição de saúde.

Eu convidei minha amiga Ariana Andrade de Carvalho, também DM1, advogada e professora de Direito do Trabalho da Uninassau em Petrolina – PE para debatermos sobre o assunto, baseado nos pontos das leis e de nossas experiências pessoais vivenciadas com o Diabetes.

Ariana Andrade de Carvalho - Advogada e professora de Direito do Trabalho

Eu, Fabiana, sempre adotei a postura de ser o mais sincera e clara possível com relação ao meu diabetes. Sempre comentei sobre o problema, condições, minhas limitações e cuidados em todos os ambientes onde convivo, inclusive trabalho. Acho que eu falava até demais, pois não podia surgir um assunto, estava lá eu explicando o diabetes!

Nunca deixei de medir minha glicemia ou aplicar insulina no meu posto de trabalho, ou de fazer meu lanche na hora certa e respeitar meus horários de alimentação e cuidados médicos.

Talvez no começo eu me restringia um pouco mais, até garantir que isso não seria um problema para meus colegas, mas depois de um tempo me coloquei sempre em primeiro lugar, e adotei uma postura “natural”, tanto que até durante os almoços conversava com meus colegas sobre contagem de carboidrato, alimentação saudável, e outros assuntos, quando me questionavam a sobremesa que eu comia, por exemplo, e também para ir buscar meus insumos e ir em consultas médicas. É uma obrigação com a minha vida, eu sempre deixava claro, e compensava as horas do meu trabalho de uma outra forma, meus chefes e colegas até hoje foram muito bacanas comigo.

Para alguns colegas o carinho era tanto que, na páscoa, se preocupavam em me presentear com chocolate diet, mesmo eu preferindo os normais (por questão de quantidade de gordura e pelo sabor). E quando eu criei o blog, mostrava os posts para meu chefe e meu colega, que sempre se divertiam, e iam acompanhando o crescimento do número de seguidores com empolgação.

Pois bem... mas já ouvi muitas outras histórias completamente opostas nos grupos de diabéticos, comentando que não tinham tempo para fazer o lanche, que foram proibidos de medir ou se aplicar no local de trabalho, que foram proibidos até de irem muitas vezes ao banheiro para fazer xixi. Imaginem, gente, um dia que você está um pouco descompensado por qualquer motivo, e não consegue segurar muito a vontade de fazer xixi, e alguém te proíbe de fazer isso?

Eu não consigo imaginar tamanha desumanidade por falta de informação, e acima de tudo, falta de respeito.

Uma outra situação pela qual até mesmo eu estou vivendo agora, é no momento de entrevistas.

Já ouvi relatos de pessoas que foram dispensadas de processos seletivos com as desculpas mais esfarrapadas, mas desconfiando-se que o motivo seja o diabetes.

Certo dia eu estava em uma entrevista e durante a conversa a minha bomba de insulina apitou, informando que o reservatório estava baixo e que em breve eu deveria repor. Com a naturalidade de sempre, peguei a bomba, apertei o botão para desligar o alarme, e ao olhar novamente para a pessoa que me entrevistava vi uma cara de espanto. Eu expliquei então que eu era diabética desde criança, que utilizava a bomba de infusão de insulina que tem sido o melhor tratamento para mim, e que a mesma tinha me proporcionado uma condição de vida muito melhor que antes. Notei que depois disso o clima da conversa mudou, e terminou mais rápido do que eu imaginava. Um tempo depois recebi uma negativa da vaga de emprego.

Foi do diabetes? Pode não ter sido. Mas PODE SIM ter sido!

Esta semana mesmo eu estava me candidatando a uma vaga no site de uma empresa de renome na área de tecnologia e a seguinte pergunta me foi feita: “Você tem alguma deficiência ou possui uma das doenças abaixo?”.

Eu tinha opção de responder “SIM”, “NÃO”, e “PREFIRO NÃO RESPONDER”, E eu preferi marcar a terceira opção, pois ao dizer SIM, o formulário não dava opção de esclarecer qual era o meu problema. Dentre tantos da lista, como podem ver abaixo, existem doenças que são limitadoras ou degenerativas, e como ter certeza que o meu currículo seria selecionado para entrevistas se eles assumirem que eu tenho uma doença grave antes mesmo de me conhecer? Neste caso, preferi não dizer, deixando pra uma próxima oportunidade do processo seletivo, se houver.

Uma amiga que é Coach me deu um feedback há poucos dias para eu não colocar a atividade do meu blog no currículo. O argumento dela, super preocupada comigo, é que as pessoas não tem tempo de entrar no site e ver realmente como funciona o meu trabalho e a única palavra que ficaria presa na mente seria “diabetes”, remetendo às experiências do vô que amputou a perna, do tio que morreu de diabetes, imaginando que eu poderia ficar sempre doente, faltar muito, e isso não seria positivo em um primeiro momento.

Me senti um pouco frustrada com isso, e pensando melhor, ela tem toda a razão. Se não pudermos explicar, as pessoas tomam suas próprias conclusões e fazem julgamentos indevidos, por pura falta de informação correta!

MAS ENTÃO, O QUE FAZER?

- Devo colocar no currículo minhas atividades voluntárias com relação ao diabetes?

- Devo dizer na ficha de cadastro que possuo uma doença crônica?

- Devo comentar no momento da entrevista sobre a minha condição?

- Não devo dizer nada?

O que é realmente certo nestas situações?

E no caso de sentir ou ter certeza que fui discriminada por ter a doença, posso reivindicar meus direitos? Posso questionar o real motivo? Se eu confirmar que realmente isso aconteceu, a lei me protege?

VAMOS ENTENDER....

O princípio da dignidade da pessoa humana (Art. 1º, III, CF/88) um dos fundamentos constitucionais do nosso país, garante que todo e qualquer brasileiro, e também estrangeiros em território nacional, sejam tratados com plena dignidade nos diversos campos da sua vida, portanto, o ambiente de trabalho se encaixa nessa visão. Deve ser garantido à todos o pleno desenvolvimento para que exista a concretização de tal princípio.

O diabetes é uma condição e um estilo de vida, que ainda é vista pela sociedade com muitos estigmas e preconceitos. Existe uma visão deturpada que os diabéticos não podem exercer a sua vida normalmente, com os devidos cuidados. Existe coisa mais chata do que estar numa festa e as pessoas controlando o que vamos comer? Nós sabemos os impactos e como tratá-los. Esse pensamento errôneo chega ao ambiente de trabalho, e da pior forma possível em muitos casos, que começa desde a não admissão para a vaga, até as proibições cotidianas, como ir ao banheiro diversas vezes, ou fazer o uso de medicamentos e insulina.

A legislação brasileira precisa avançar mais nesse sentido, ainda são muito frágeis os direitos voltados aos diabéticos, às políticas públicas necessitam de uma maior efetivação. Porém eles existem, e não podemos deixar de lutar por eles.

É taxativamente proibido pela Constituição Federal e pela Consolidação das Leis Trabalhista atos discriminatórios na admissão de uma pessoa, o Empregador pode ter inúmeras exigências profissionais para ter um empregado dentro do seu espaço, mas não pode usar como critério o diabetes para admitir ou não uma pessoa. Tampouco, assediar moralmente um empregado pelas condições necessárias de um diabético, ele tem o direito de ir ao banheiro quantas vezes forem necessárias, aplicar a sua insulina, fazer o lanches regulares.

Se perceberem que os seus direitos estão sendo violados, o Poder Judiciário, o Ministério Público Estadual, o Ministério Público do Trabalho, a Defensoria Pública, a Comissão de Direitos Humanos, os Conselhos de saúde, devem ser acionados.

Como diz o amado Renato Russo:

“Não me entrego sem lutar, tenho ainda coração. Não aprendi a me render, que caia o inimigo então!”

Vamos a luta!

CONCLUSÃO

Na nossa opinião, vai de cada um dizer ou não sobre a sua condição já de cara. Vai de cada um aplicar ou não insulina perto dos colegas. Cada um tem a sua realidade.

Mas do fundo do coração, achamos que temos que ser verdadeiros, não somente pelos outros, mas conosco mesmos. Não precisamos e nem podemos nos esconder. Precisamos nos cuidar, e isso implica até mesmo em ensinar o seu colega de trabalho como agir em uma situação delicada, de hipoglicemia por exemplo, a favor da sua vida e bem estar.

Mas saiba que, independente da forma com que você lidar com a situação de ser diabético na sua vida, a discriminação é um crime, e quando houver a comprovação deste ato, você pode e deve reivindicar os seus direitos.

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