• Fabiana de Luna

Ter diabetes e morar na Itália: "La dolce vita"!


DIABETES E VIAGENS - NÃO TENHA MEDO DE MUDANÇAS!

Pra iniciar a série de entrevistas com Diabéticos Brasileiros que se mudaram para outro país, convidei o Fabrício Caetano, um "ragazzo" que conheci em Florença enquanto estudava italiano por lá, e foi super bacana, pois ele já estava na Itália havia alguns meses e me deu super dicas de como me virar por aqui também!

Foi então que surgiu a ideia de entrevistar diabéticos pelo mundo, e o slogan sugerido não podia ser outro: LA DOLCE VITA! Literalmente!

O primeiro dia que nos encontramos por lá não podia ser de outra forma: GELATO!

(Já que aqui não tem pão de queijo né... hehe)

Vejam que legal o relato do Fabrício! Aproveitem!

Dia(enoite)bética: Conte um pouquinho de você, o que faz, enfim, apresente-se!

Me chamo Fabrício, ou Fabri pelos italianos, sou mineiro nascido em Uberlândia e tenho trinta anos de existência e quatro de diabetes. Me formei em arquitetura em 2013 e trabalhei por dois anos como arquiteto, quando, pouco antes de estourar a crise, decidi largar tudo e correr atrás do sonho de vir para terra da bota, também conhecida como Itália.

Dia(enoite)bética: Conte sua vida com o diabetes... há quanto tempo tem, como descobriu, etc...

Em 2010 procurei um endocrinologista especializado em medicina do esporte para ganhar uns músculos e deixar a magreza de lado, foi quando começou o primeiro alerta. Glicemia em jejum a 104mg/L. Até então não significa muito, mas com a nova dieta (rica em carboidratos) passada pelo médico, em uma semana subiu para 126mg/L. Foi aí que começou a jornada pré-diabética. Pulei de médico em médico para saber o que acontecia e não encontrei nenhum que me agradasse. Encontrei médicos conhecidos na cidade que mais pareciam representantes da Metformina. Até que no início de 2013 encontrei minha médica que me pediu para cortar o medicamento, fazer os exames para avaliarmos a situação. Porém, eram os dois meses antes da entrega do TCC e em meio à correria, noites mal dormidas, má alimentação, stress e angústia e nada de atividades físicas, não fiz os exames e depois de toda aquela carga, na semana seguinte da apresentação começo a me levantar com a glicemia, que antes estava sempre na casa dos 115mg/L, e agora girava em torno de 200 até 300mg/L. Depois de exata uma semana da apresentação, às 22:30 com a fome batendo forte, resolvo fazer a medição e constato o valor mais alto (constatado) até hoje, 480mg/L. Decido imediatamente a ir para o hospital de onde só fui liberado às 2:30 da madrugada. No dia seguinte, por telefone, a médica me diz que infelizmente começava ali a vida de diabético e iniciamos o tratamento.

Nem todo mundo lida com a situação da mesma maneira, mas embora nunca tenha imaginado de haver coragem de usar uma agulha em mim mesmo, era essa a nova realidade e não era o fim da vida, muito longe disso. Posso dizer que o diabetes me deu mais vontade ainda de apreciar a vida e achar para ela um belo significado. Embora uma doença venha para nos enfraquecer, não me dei por vencido e decidi realizar o antigo sonho de vir pra Itália. Então posso dizer que sim, o diabetes me influenciou, mas no fim me deu força para acreditar que sou mais forte e posso ir além.

Dia(enoite)bética: O fato de ter diabetes pesou em sua decisão de se mudar de país? Foi empecilho, de alguma forma neste sentido?

É claro que como diabético não posso me mudar para outro país sem antes me informar sobre a situação sanitária na minha futura morada. Mas neste sentido a Itália, além de encaixar direitinho no coração, também se encaixou nas necessidades. Embora os italianos dizem que já foi muito melhor, a Itália, dos países cujo sistema de saúde é público, está em segundo lugar, atrás somente dos nossos vizinhos franceses. Isso foi um grande alívio para mim e para toda família (leia-se papai e mamãe).

Dia(enoite)bética: Como era o seu tratamento no Brasil, e como é na Itália? Vê muitas diferenças?

No Brasil fazia o tratamento com a NPH (basal) e a Humalog (ultrarrápida), sendo que a segunda eu sempre comprei. Pouco antes da vinda pra Itália, mudei pra Lantus porque sabia que aqui seria um tratamento melhor. Quando cheguei, ainda não era cidadão italiano, portanto, não poderia me inscrever no sistema sanitário e receber os insumos. Confesso que neste início fui imprudente e contei com a sorte, mas conseguia comprar as insulinas na farmácia onde vivia, porém, nem sempre se pode contar com a compreensão do farmacêutico. Aqui na Itália não se compra medicamento sem receita.

Após reconhecer a cidadania, me inscrevi no sistema público de saúde, onde tenho meu médico de base (clínico geral) e meu diabetologo (aqui separam o médico especializado em diabetes do endocrinologista). A partir daí, com a tessera sanitaria (carteira do SUS italiano) em mãos, passei a receber os insumos e meu médico mudou minha insulina basal para a TRESIBA, que tem ação mais prolongada comparada com a Lantus.

Meu início foi bem tranquilo por já conhecer uma enfermeira que me ajudou muito no início. Cheguei a iniciar um teste com a bomba de infusão de insulina, mas tivemos que interromper porque me mudei da Umbria para Toscana, mas em breve continuarei com os representantes toscanos da Medtronic, que estava me dando suporte.

Dia(enoite)bética: Como foi a adaptação da vida com o diabetes, especialmente com a alimentação, já que você se mudou para um país cuja gastronomia é feita basicamente por carboidratos (E que delícia!!! hummmmm)

Após a chegada na Itália tive que conciliar uma vida de poucos gastos (por ficar quatro meses sem poder trabalhar) com a adaptação alimentar. Mas não é à toa que dizemos que “qui si mangia bene”, e embora a confeitaria italiana use bem menos açúcar que a brasileira, devemos lembrar que para um diabético açúcar é açúcar e devemos controlar os carboidratos sempre.

Sim, a Itália é a terra da pizza e dos pães e da Nutella, aqui o café da manhã é resumido em croissant e cappuccino (o verdadeiro), porém, a diversidade gastronômica italiana é imensa, o que envolve frutas e verduras e um lindo respeito pela estação de cada uma. A mexerica aqui é fruto do inverno, doce e barata, e agora na primavera se acha raramente e com preço altíssimo. Estamos na estação das cerejas e mais tarde dos melões. Com as estações tão bem definidas fica bem difícil cultivar frutas e verduras fora da época de cada uma.

Fora isso, nos mercados tem uma ampla gama de produtos integrais e sem glúten. Peixes e frutos do mar têm preços variados, frango e porco são mais em conta e carne vermelha normalmente é importada, então, o preço é mais alto. Apesar de alguns ajustes aqui e outros ali, a alimentação aqui é bem equilibrada como a nossa no brasil. Trocamos o arroz e feijão pelo spaghetti, gnocchi, strangozzi, ravioli ou risotto, mas se bater a saudade da comida tupiniquim basta dar um pulo nas sessões especiais dos supermercados ou ir nas lojas étnicas que o problema se resolve na hora.

Dia(enoite)bética: Como é viver sozinho em outro país, tendo diabetes tipo 1? Passe uma mensagem aqueles que sonham em viver fora um dia...

Ser diabético e atravessar o oceano sozinho, sem conhecer ninguém do outro lado e ainda ter que lidar com o controle constante da glicemia não é fácil, mentiria se dissesse que não dá medo. Mas também mentiria se dissesse que não é possível. Até os heróis têm medo. Bombeiros têm medo. Socorristas têm medo. Policiais têm medo. Médicos têm medo. O medo é necessário para nos ajudar a romper barreiras conscientes do que estamos fazendo. A falta do medo nada mais é que inconsequência. Então, sonhe grande e comece pequeno. Se quer mudar de país, analise as possibilidades. Veja como funciona o sistema de saúde. Se vai como estudante, avise a universidade. Se vai morar com outras pessoas basta informar o que deve ser feito em caso de emergência. Se vai morar sozinho, faça um bom controle. Você será o único responsável por si mesmo. Faça acompanhamento médico. Avise as pessoas próximas a você, mas de uma maneira tranquila. Não esconda nunca sua situação. Ninguém é culpado de haver uma doença e ninguém sabe quanto tempo de vida nos resta. Com ou sem diabetes.

Por isso, celebremos a vida, pois como nos ensinou Benigni: “A vida é bela!”

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